Extinta da natureza, ave retorna ao habitat natural em Alagoas

3 de setembro de 2019

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Trata-se do Mutum-de-alagoas, primeira espécie de animal extinta da natureza na América do Sul


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O Mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), ave extinta da natureza e uma das mais ameaçadas do planeta, retornará ao ambiente onde nasceu, na Mata Atlântica de Alagoas.

Pela primeira vez na América Latina, um animal desaparecido completamente do seu habitat natural retornará às origens.

O Ministério Público Estadual de Alagoas (MPAL) está envolvido na força-tarefa para a reintrodução da ave, prevista para este mês de setembro.

Os preparativos para a ação incluem educar a população sobre preservação da mata, também para evitar a captura por caçadores.

Segundo o promotor de Justiça Alberto Fonseca, três casais serão devolvidos à floresta. O local escolhido é a floresta na usina Utinga, na cidade de Rio Largo.

As aves passarão por um processo de adaptação, em um viveiro construído no novo ambiente.

“Foram muitas reuniões, ao longo de anos, até chegarmos a esse momento de pré-soltura. Vários protocolos e termos de ajustamento de conduta (TAC) foram celebrados de modo que pudéssemos preparar o terreno para chegada das aves. E olha, saber que estamos na contagem regressiva para vê-las soltas, livres, vivendo no seu local de origem, chega a ser emocionante”, disse Fonseca.

 

Mutum-de-alagoas

Ave alagoana desapareceu da Mata Atlântica há cerca de 40 anos. Foto: Luis Fábio Silveira

Histórico

Em 2017, um casal de Mutum-de-alagoas foi levado ao estado de Alagoas, partindo de Minas Gerais. O objetivo era testar a capacidade de reacomodação das aves.

Ainda hoje as aves estão em um viveiro. Este, instalado dentro do Centro de Educação Ambiental Pedro Nardelli, também na usina Utinga.

Em 1976, o ambientalista e empresário carioca Pedro Nardelli descobriu que o Mutum-de-alagoas estava desaparecendo.

“Depois de muito peregrinar, descobri que havia um mutum preso. Fiquei curioso com a informação e fui à delegacia para saber o que o coitado do animal havia feito para estar atrás das grades. O policial me disse que um camarada fora detido porque bateu na esposa. E como o sujeito estava acompanhado do bicho na hora do cumprimento do mandado, o mutum foi junto. Mesmo não tendo nada a ver com a confusão entre marido e mulher (risos). Acho que esse foi o único caso no mundo onde um animal ficou detido num xadrez humano”, relembrou Nardelli, quando esteve em Alagoas em 2017.

O carioca conseguiu trocar o mutum por outra ave com o sujeito da história.

Posteriormente, convenceu caçadores a buscarem por novas aves, e não matá-las.

Já em 1980, o ambientalista reuniu cinco espécies no Rio de Janeiro. Assim, iniciou a reprodução em cativeiro para evitar o completo desaparecimento das aves.

Trabalho paralelo

Enquanto as aves se reproduziam em cativeiro, um trabalho de conservação de fragmentos florestais de Alagoas acontecia.

O processo envolveu Fernando Pinto, do Instituto de Preservação da Mata Atlântica (IPMA); o promotor de justiça Alberto Fonseca (MPAL); e José da Silva Nogueira, da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas.

Iniciativa semelhante aconteceu no Havaí (EUA) há algumas décadas.

O Mutum-de-alagoas

Trata-se de uma ave de grande porte, dispersora de sementes, que possui um papel central na regeneração das florestas onde vive.

O animal habitava apenas a faixa de Mata Atlântica de baixada no Alagoas.

“Hoje só temos que comemorar essa expectativa de ver o mutum livre. Sua soltura coroa o trabalho de um grupo de abnegados que se esforçou para devolver à natureza um animal extinto da mata desde o final da década de 1970.”, comemora Fernando Pinto.